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SONHOS NÃO ENVELHECEM?

“máscara troféu” – desenho de Mari Blue

“Sonhos não envelhecem”, me deparo com esse trecho de uma das músicas que eu mais amo e em seguida me pergunto: será que não envelhecem mesmo?

Por ora, chego à conclusão de que apenas alguns e estes não costumam nem ser evidenciados por envolverem questões perigosas para os que querem permanecer no controle disciplinar, por envolverem o que dificilmente envelhece: os produtos humanos mais sutis e revolucionários. Aliás, arrisco pensar que é sobre esse tipo de sonho que Márcio Borges estava falando quando escreveu a letra da canção Clube da Esquina número 2.

 Os sonhos são belas armas valiosas de fazer viver para, em função de, em direção a, por vezes, em um lugar bem longe daqui. Frequentemente se tornam românticas ferramentas para transformar sujeitos sensíveis em máquinas pouco criativas (ou até muito criativas) e, de bom grado, felizes (ou parecendo felizes), exaustos, ansiosos, depressivos e exaltados eles entram em caixas cada vez menores. Chega um momento em que estão tão automatizados e focados no propósito que nem se questionam se ainda importa. O orgulho de alcançar a meta anestesia qualquer movimento em outra direção ou ao rompimento. A lógica deixa de fazer sentido e o que importa é chegar lá, naquele lugar que foi definido um dia, quase como uma vingança contra “aqueles que não acreditaram no meu potencial”. Sonho, muitas vezes, é uma palavra bonita usada para esconder as maiores obsessões pela autoimagem idealizada e por     poder.

A maioria dos sonhos tem sido muito parecida: sucesso, projeção, dinheiro, casas maravilhosas, viagens, filhos perfeitos que vão estudar nas escolas do nível (elevado) deles (ou nada de filhos!), “amores da vida” que estarão para sempre saudáveis, sedutores, cheios de libido, prestativos e plenos para seguir até o fim (e que o fim demore bastante para chegar!). Clássicos sonhos burgueses vendidos para todo mundo. Vendidos? Sim. E custa caro, um preço inversamente proporcional aos recursos do sonhador. Às vezes alguns sonhos precisam poder envelhecer, e eles podem. As contingências mudam tanto os cenários no decorrer da vida que os sonhos  podem se transformar, seja para a completa falta de sentido, seja para uma possível reinvenção e isso não significa derrota, necessariamente, isso pode significar, por exemplo,  liberdade, flexibilidade.

 As famílias costumam amar ou odiar os sonhos dos “seus”, assim a criatura sonhante se torna ainda mais pressionada na prestação de contas. “Acredite em você!”, “Acredite nos seus sonhos!” , “Você merece!”. Adorável discurso motivacional, simples e sedutor. É claro que todos nós precisamos de autoestima. Mas é preciso repetir bastante essas frases para o narciso sonhador aprender a reza e seguir aparentemente convicto, só que muitas vezes parecem mais ateus na missa se esforçando para acreditar.

“Chegou a destruidora de sonhos!!!!!”. Cheguei. Cheguei para destruir cada sonho apegado, iludido, covarde, desonesto e que permanece inerte freando a explosão. Que a palavra “sonho” se transforme! Que seja proferida no seu significado mais lúdico! Que os vendedores de sonhos percam seus empregos por venderem produtos tamanho único e sem diversidade. Ou que os sonhadores tenham mais consciência sobre o produto que estão comprando, que tenham direito de trocar ou simplesmente devolver. Que tenham direito de não comprar. Pode ser que a validade seja indefinida e pode ser que já venha vencido. O consumidor tem que ficar de olho! Pode ser que esteja na moda. Normalmente a moda passa. “A chama não tem pavio”. Pra começar, um sonho interessante pode ser: despertar.

BANHEIRO DE EMPREGADA

  Há alguns anos eu venho carregando o desejo de escrever sobre um assunto que me causa remelexos intestinais: o “banheiro de empregada”, esse cômodo que esconde e revela uma aberração estrutural profunda do “meu” país, uma inscrição concreta nas plantas das moradias dos mais abastados e que não será destruída com uma simples demolição de suas louças baratas.

     Leio um artigo no qual uma arquiteta declara que há uma tendência de que o espaço (incluindo o “quarto de empregada”) desapareça das residências, já que vem sendo eliminado das plantas, e então ela justifica: “atualmente, é difícil arrumar um auxiliar de serviços que durma na casa do patrão”. Nos meus pensamentos agradeço a arquiteta pela sinceridade. Prosseguindo na leitura, constato que ela continua dando dicas para reformar os apartamentos que já possuem as “dependências de empregada”, alertando que é sempre bom preservar os banheiros nos projetos. Nas palavras dela, “um banheiro a mais, além de desafogar a demanda da casa, pode ser usado por uma pessoa que vai entregar, por exemplo, o gás, pois não há necessidade dela entrar no imóvel, e também pela auxiliar. Aconselho inclusive a colocar um chuveiro”. Percebo um esforço para trocar a palavra “empregada” por “auxiliar” em alguns momentos, mas prossigamos. Ela vai em frente afirmando que a “dependência de empregada” em um apartamento de classe A é “um bem a mais” que pode valorizar o imóvel. Já em apartamentos da classe C e D, pode atrapalhar, ou seja, poderia ser melhor utilizado. Abro um parêntesis pra lembrar que ela está falando sobre o “quartinho de empregada”, uma vez que já expressou que o “banheiro de empregada” deve permanecer em qualquer caso.

     Lembro de uma matéria recente que tratava das demandas da elite brasileira que está indo morar em Portugal, relatando que as empresas de construção e reforma portuguesas estão tendo que se adaptar aos “costumes” desses imigrantes de primeira classe. Em resumo: estamos exportando o  nosso conceito de “dependências de empregada” e anexado a ele o conceito de “banheiro de empregada”. Ops, banheiro de “auxiliar de serviços”, agora ficou melhor, muda-se o nome para não mudar nada, nesse caso. Em seguida, lembro também do filme “Histórias Cruzadas”, baseado no livro homônimo, que apesar de ter a clássica narrativa de exaltação do “branco salvador” (nesse contexto, a branca salvadora), é uma história que vale a pena ser conhecida em se falando da relação opressão X banheiros, duas coisas que parecem merecer um cuidado epistemológico especial.

      O fato é que no caso do Brasil não foi preciso criar uma lei para separar banheiros de negros e de brancos, como ocorreu nos Estados Unidos. A violência  aqui é aplicada por uma cultura carregada de leis subliminares ainda mais fortes, onde o “banheiro de empregada” é um significante. As empregadas racializadas sabem bem “o seu lugar” na visão da patroa (ou patrão), sabem o quanto dependem daquele emprego e o que significa “cruzar a fronteira”. Aliás, devo ressaltar que isso provavelmente não é uma especialidade brasileira, mas prefiro concentrar no nosso contexto de povo sorridente, que provavelmente carrega um sorriso de nervoso. Sobre esses assuntos de fronteira no território do trabalho dito “doméstico” recordo o filme coreano “O Parasita”, que dedica alguma atenção a esse ponto específico das relações e mostra que a ideia de uma classe que “cheira bem” não é exclusividade nossa, a merda mais cheirosa é encontrada no mundo todo.

             Já ouvi sujeitos que, querendo justificar a utilidade e benefício do “banheiro de empregada”, argumentam que estão promovendo um espaço de privacidade para aqueles que “prestam serviços” na casa, criando uma relação mais profissional com essas pessoas. Nesses momentos, aquele remelexo intestinal que citei inicialmente me toma de assalto perante tamanha capacidade de argumentação laxante, uma vez que profissionais ditos “classe A” como médicos e advogados  (que por ventura prestarão uma consultoria nesse domicílio), jamais serão direcionados a esses banheiros, por mais estranhas à família que essas pessoas sejam. Enquanto isso, pedreiros e diaristas serão muito bem vindos neles. Inclusive, funcionárias que são tidas como “praticamente da família” também são incluídas nessa relação super profissional, até porque esse “praticamente” denota mais uma relação de função prática e utilitária do que de membro da família.

        Volto na fala da arquiteta que citei no início e não me surpreendo que os “aposentos de empregada” não estejam saindo das plantas dos apartamentos por vergonha na cara, mas por falta de trabalhadoras que se sujeitem ao cargo, em seguida recordo a revolta da classe média frente a alguns dos mais recentes direitos trabalhistas destinados às “trabalhadoras domésticas*” contratadas. Patrões e patroas, apavorados com o risco de terem que lavar a sua própria privada ou lidar com sua sujeira, criticaram as medidas se apoiando no possível desemprego que esses direitos iriam promover. Sempre há quem defenda condições análogas à escravidão ou injustiças tremendas em prol de um desemprego menor, ou seja, uma desculpa conveniente, cruel e muitas vezes alienante.

          Há quem esteja, real ou aparentemente,  se envergonhando do próprio passado, nomeando apenas com a palavra “banheiro” o antigo “banheiro de empregada” e transformando o “quartinho de empregada” numa dispensa ou num escritório. Mas o esqueleto de concreto e a planta mapa de um assunto que estamos longe de superar ainda está lá, para alguns, existindo como um museu do ontem, para outros, que querem perpetuar esse sistema, um museu do amanhã.

* Uso “trabalhadoras domésticas” com aspas para explicitar o emprego corrente; e no feminino, pelo fato de que são mulheres, em sua grande maioria, que executam trabalhos de cuidado na esfera dos domicílios no Brasil e no mundo.

ensaio sobre O AMOR LIVRE

_  Mas eu te dou liberdade meu amor!

_ Não, você não me dá liberdade. Você me devolve, é um estorno.

Somos todos juízes e carcereiros.

     O que é liberdade? É uma invenção. O que chamo de liberdade é algo que não se possui de prima, é sempre uma devolução. Provavelmente não é possível ser livre por inteiro, mas é possível reconquistar espaços. Há uma metafísica nessa afirmação uma vez que a própria liberdade estorno torna-se uma ideia, e uma vez que nunca a tivemos (ou a teremos) de forma total, sua totalidade se mostra transcendente. Fica parecendo platônico, mas não é por esse caminho que quero ir. O território da liberdade estorno que trago não vive no “mundo das ideias” à moda de Platão, não é imutável, não é “a verdade” e muito menos atrelada à perfeição, ao verdadeiramente belo e sublime, sobretudo não diminui ou condena o espaço da existência na nossa realidade possível, mas expande suas possibilidades. A liberdade que exponho é arte, criação, invenção, é patafísica mais que metafísica. Somos todos inventores, a priori.

   O que é o amor? É uma invenção. O amor enquanto entidade universal não existe, e se existir, estamos longe de achar uma definição pura e imutável que dê conta do seu significado. Quando alguém diz “Eu te amo”, nem a pessoa amante e nem a amada faz ideia do que isso significa de fato. É onde a comunicação, que sempre é ruim, torna-se ainda mais débil, as cobranças se instauram e emerge a frase: “você não me ama de verdade”. Cada indivíduo costuma trazer sua fita métrica para medir o amor, entretanto a unidade de medida não tem padrão (metáfora de Marina Colasanti). Assim ninguém ama ninguém de verdade, já que a verdade, aqui, não existe, existem criaturas querendo consolidar seus próprios valores, suas próprias medidas, ou as medidas aproximadas que a moral vigente estipular, porém elas insistem em dizer que não. No subtexto dizem: “a minha fita métrica é a certa, a boa, a melhor”. “L’amore non esiste”, esse é o título de uma canção que, por um “insight” (ou um “clarão”, em mineirês), destruiu o amor histórico que me assombrava. Agora era preciso livrar o amor se eu quisesse ainda viver com ele, se eu quiser que ele exista. 

     O amor na sua existência livre não habita a balança do bem e do mal: “o bem, assim como o mal, não tem sentido. Um e outro são seres da razão, ou da imaginação, que dependem totalmente dos signos sociais, do sistema repressivo das recompensas e dos castigos” (Deleuze, sobre a filosofia de Espinosa). Esse dualismo é herança maniqueísta impregnada em nós ocidentais até as entranhas, misturada ao tipo de valoração do platonismo cristão. Nosso amor (nos seus aspectos mais populares) é quase sempre platônico. Se a verdade sobre nossa existência existe, como poderemos identificar dentre todas disponíveis qual é a verdadeira? Problema sem solução. Areia movediça. Posso aceitar verdades sobre o amor desde que provisórias, possíveis, limitadas, inventadas. Por isso insisto na palavra “invenção”. Contradição, temos mania de querer organizá-la mas é impossível, basta olhar com profundidade para ver que ela está sempre ali, em tudo. Para criar sentido precisamos da contradição. Para viver é preciso criar sentido, múltiplos sentidos. Qualquer cosmologia precisa aceitar a contradição se não quiser negar o infinito. Temos um sério problema com o infinito, ele carrega uma carga niilista que pode ser atordoante até mesmo nas aulas de matemática, com excessão da promessa de paraíso eterno, para quem se interessa por ela. Me parece interessante um niilismo de passagem, condição a se superar, já que o niilismo absoluto pode ser paralisante. “Fé cega e faca amolada”, à moda de Milton Nascimento/Ronaldo Bastos, ou “fé cega e pé atrás”, à moda de Humberto Gessinger.

    O “jeito de amar” mais ordinário que temos experiência, pegando a parte mais objetiva e superficial possível, tem segurado todo um sistema nas bases mais submissas e ocultadas. Por ele lutamos para manter as cordas bem amarradas, para que a engrenagem não se altere. Admitir que o amor seja livre é muito perigoso e exige uma justiça dinâmica, flexível, mais ética, menos moral e em constante movimento. Sim, eu escolho diferenciar moral e ética, mesmo que, na raiz, essas duas palavras tenham o mesmo significado. É preciso aceitar que a justiça tarda, falha e nem se quer existe por si só, nós a criamos, somos os inventores dela e que a busca pela perfeição é um modus operandi de dominação. Determinaram, determinam e determinarão o que é perfeito e certo em bases dogmáticas, oprimindo os imperfeitos, superestimando os “corpos dóceis”. 

   Em“O Banquete”, obra prima de Platão (380 A.C) dedicada ao amor (no caso, Eros), a  personagem Diotima traz a conclusão mais bem-quista por Sócrates de que Eros é disforme e vai em busca do belo, e sim, a verdadeira beleza existe na filosofia de Platão.  Diotima diz: “olhar o belo do único modo que o belo pode ser visto, somente então lhe será possibilitado gerar não imagens de virtude, mas a verdadeira virtude, uma vez que seu contato não é com a imagem, mas com a verdade”. E o que é o disforme? O que é o belo verdadeiro? Alguém dirá/diz/disse e aparentemente adoramos essa pauta, esse tipo de cognição nos causa uma satisfação solúvel, nos apetece as propostas que levem até a segurança do imutável. Que tal menos predição? Que tal andar por caminhos menos dualistas? Outros tipos de cognição é o desafio. O Platonismo tornou-se dogma tão enraizado no ocidente que nem precisa mais de pregação, já é a premissa, de onde parte o pensamento de grande parte das pessoas.

     Platão foi um sujeito histórico incrível, escreveu verdadeiras obras primas, não é à toa que cismaram com ele. Ainda sobre “O Banquete” vou citar um trecho que, ao contrário dos pontos que critiquei anteriormente, me move bastante (em concordância) nesse ensaio sobre amor: “o mortal participa da imortalidade, quer no que se refere ao corpo, quer em todos os outros aspectos: isso não é exequível por nenhum outro meio. Portanto, não te espantes com o fato de todas as coisas naturalmente valorizarem seus próprios pimpolhos, pois é em vista da imortalidade que todas as coisas mostram esse zelo e amor. (…) basta lançares um olhar na ambição dos indivíduos humanos à sua volta. Ficarias espantado com a irracionalidade deles (…) terrivelmente são afetados pelo amor da conquista de um nome e da edificação de uma fama para sempre imortal (…) estão todos apaixonados pelo imortal.” Somos apaixonados pelo imortal e escravos dessa paixão, essa tem sido a nossa  trágica forma de lidar com o infinito. Sobre esse trecho me deparo com a nossa tentativa de edificação da eternidade de forma concreta. Nosso estereótipo de amor mantém-nos culturalmente narcisistas, preservando nossos nomes, sobrenomes, casamentos, união de bens, famílias, propriedades, reinados, por menores que sejam os bens materiais e imateriais em jogo. Livrar o amor pode nos deixar irreconhecíveis, metamorfoses ambulantes. Requer um trabalho no ego, estar mais que ser, se conhecer na transitoriedade mais do que se reconhecer. O sentido deverá ser construído no caminho, sem destino, vagando com mais leveza, sem grandes metas ou muitas grandes metas. No entre. 

      Difícil não lembrar de Schopenhauer  quando se pensa sobre amor, ele foi um dos poucos filósofos que se dedicou bastante ao tema. É conhecido como “o pessimista” e trouxe uma ideia de amor bastante atrelada ao lado biológico e assim nós seríamos reféns dos nossos instintos de procriação, para ele não existem muitas saídas e isso pode trazer muita dor. Quando nos deparamos com o cliché “o amor = dor” estamos diante de um traço do legado desse importante filósofo do século XIX. Ele concebeu o amor como não sendo sinônimo de felicidade e, até aí, absorvo em concordância com sua análise, mas o amor que vislumbro identificar dentre tantas coisas não é ele próprio, necessariamente,  gerador da dor. 

    O amor pode causar dor por seu movimento criativo e destruidor. A dor no território dos afetos é fruto das expectativas humanas sobre o outro, vem da prepotência e do apego, da criança que grita pela predileção da mãe e se comporta da mesma forma em suas relações até o fim. Somos vaidosos e “a vaidade excita”. Sim, eu quero descolar o amor da dificuldade do ser humano de lidar com a falta, com o desejo, com o desequilíbrio, com a rejeição. Não estou interessada em defender que “amor deve ser isso”, “amor é aquilo”. Quero propor! Uma proposição a quem se interessar e a quem fizer sentido. Já aviso que os interessados não darão conta desse amor, até porque ele não tem a ver com isso. Não é sobre dar conta. Experimentação.Vamos identificá-lo dentre tantas coisas para que possamos admirar sua liberdade e que paremos de culpá-lo por nossa miséria. Que possamos identificar egoísmo, vaidade, inveja, ciúme, posse, agressividade, vontade de poder sobre corpos, vício em predileção, ilusão e tantos outros fenômenos que atribuímos ao amor. E se o DNA é nosso karma, vamos aprender a surfa-lo!!! (citando Humberto Gessinger, mais uma vez).

     O amor que estou propondo tem a ver com criação, movimento, transformação, desejo, e não com o produto deles. O produto vai variar dependendo da nossa capacidade de digestão, do nível de apego, de negação, de observação das nuances do real, da concepção de realidade, da predisposição a fantasiar (e exigir que a fantasia se transforme em execução prática). O produto pode ser dor, mas não necessariamente. E caso seja, a questão passa a ser o que se faz com essa dor. Normalmente a dor tende a ser exaltada e a pessoa (que se identifica como vítima) inaugura sua sofrência. Agora é um refém que merece receber as condolências. 

     A palavra “romantismo” tem um senso comum nebuloso que faz muita gente estranhar quando defendo que é preciso destruir o amor romântico. Quando apresento essa ideia não proponho que as pessoas parem de fazer poesia, de presentear com flores, fazer um jantar especial ou o que mais isso pode significar no campo das sutilezas. O ideal romântico que deve-se destruir é o da idealização da realidade e das pessoas, da romantização da dor, da união, da honra, da moral e até da morte. ”Diga que você é minha”, Você é e será o único amor da minha vida”, “Não posso viver sem você”, “somos cada um a metade da laranja”, “almas gêmeas”, “nascemos um para o outro”, “você nunca me amou”, “pensei que você fosse diferente, mas é igual as outras”, “não se dá valor”, “não te reconheço mais, você mudou!”, blá, blá, blá. Destruindo o amor romântico tem muita música que deixa de fazer sentido, algumas podem continuar lindas, mas como peça, não mais aquele grito ressentido de vingança ou alimento para sofrência. Quem livra o amor tende a ser mais forte e isso pode causar muito repúdio em quem sofre de amor preso. Somos educados para ter amor moral, aqui não queremos amor imoral e sim amoral, sobretudo ético. Qual será a ética? Devemos construir. Não tem livro guia. “A minha liberdade acaba onde começa a do outro”, parece perfeito se o outro não quisesse se apossar de grande parte da minha liberdade alegando ser dele (e ele realmente acha que é dele), aí nesse espaço de interseção das liberdades de dois indivíduos (ou mais) a ética precisa ser construída em parceria, caso, visto os limites de cada um, essa parceria queira mesmo prosseguir. Diversas vezes a parceria acaba por medo do caos, medo da natureza do próximo, mesmo quando o grande perigo apenas afete o controle que um quer ter do corpo e da mente do outro, duas coisas que pra mim são uma só, mente é corpo, corpo é tudo, é o todo.

       Vou parar por aqui, não porque seja o fim do texto, mas porque decidi parar. Tudo o que “é”, aqui significa que “pode ser”. Por isso escrevi um ensaio e não haverá espetáculo final. “O medo de amar é o medo de ser livre” (título de uma música de Fernando Brant com Beto Guedes), “o medo de amar é não arriscar, esperando que façam por nós o que é nosso dever, recusar o poder”. Recusar o poder, ser impotente e seguir apenas como juiz dos outros, sendo o julgador sem legislar, procurando outros  ressentidos e medrosos (que são muitos) para defender-se da transformação. Julgar é preciso, é o que estou fazendo nesse momento, inclusive. Contudo, na prática, os juízes medíocres não escapam do caos coberto pelos panos da hipocrisia, aquela que ninguém quer, mas que poucos abrem mão, porque de tão fina, a hipocrisia é sempre pano para cobrir, não protagoniza, é cenário para cobrir cenário. Na origem da palavra ela seria a própria máscara do ator, entretanto, a máscara do ator não esconde ser máscara, é autêntica. Recusar a liberdade estorno mata por asfixia, liberdade total vai matar por excesso de oxigênio. A morte é inevitável. No caminho as escolhas. No caminho, o caminho. No entre. Móvel. Entre!

A Música Não Existe

Compus essa música em 2017 após um “insight” que tive ouvindo uma canção que gosto muito chamada ” L`amore non esiste” (O amor não existe, em português). Então, tanto “A música não existe”, como o single que lançarei em seguida (sobre amor), se relacionam com uma vontade de desestabilizar qualquer ideal do verdadeiro significado das coisas. Não estou dizendo que música não existe, até porque obviamente existe, o que não existe é “a” música como algo universal que pode ser consagrado. O que é música já mudou muito na história da humanidade, muitos tiveram/tem a ousadia de dizer “isso é música” ou “isso não é música”, no final falaram bastante de si próprios. Resolvi fazer uma abordagem pouco romântica sobre a música, colocando-a num lugar potente de afeto, que afeta o mundo e as pessoas. É onde consigo dar conta do recado. Considero esse trabalho uma homenagem para “essa coisa” que move minha vida de forma tão significativa. Essa coisa que nem “coisa” é, e portanto tão difícil de vender de forma objetiva, assim como é difícil ser reconhecido como profissional quem a produz. Música não combina com o capitalismo e vai lutando para se moldar a ele, ou se chocar (onde me interesso mais). Não fiz um roteiro pré definido para o clipe, somente um roteiro de filmagem e estético. O foco era as sensações e desconstruções da realidade como a conhecemos. Como concebi a faixa gravada com ar bem setentista ( e com partes que trazem coisas dos anos 80 e 90), levei o clipe para esse lugar. A coisa menos pessoal que achei sobre o assunto foi a parte física da música que nos afeta através de ondas mecânicas e frequências, coisa que me interessa bastante e que salpiquei por todo o vídeo na minha tradução imagética. Por fim penso ainda que mesmo essa fatia da possível “natureza” física da música possa vir a se desconstruir um dia, basta lembrar que conseguimos ouvir músicas no pensamento, nos sonhos, sem conexão com o “mundo real” durante todo o processo, pode ser que no futuro venhamos a “sentir” música além do corpo físico e dos ouvidos, sem precisar de ar para que ela seja definida como tal, apesar de que eu digo na letra “enquanto houver ar ela viverá”, mas acrescento para corrigir: “enquanto eu respirar viverei com ela”.

Disponível em todas as plataformas!

Sobre a música:

Produção musical, gravação e mixagem: Mari Blue

Voz, piano, teclados, baixos synth, beats: Mari Blue

Bateria e baixo: Mário Wamser

Violoncelo: Federico Puppi

Masterização: Absolute Master

Gravada e mixada no estúdio Ouvido em Pé (Rio)

Sobre o clipe:

Concepção, direção, roteiro e edição: Mari Blue

Câmera: Mário Wamser

SE ACREDITO EM DEUS

Se acredito em Deus…

Não sei responder, não me interessa essa pauta, que sempre me engessa por fartura ou por falta.

Quero caminhar ao lado dos crentes e dos ateus, nem atrás e nem a frente. Não tenho onde chegar, não há razão para me apressar.

Ao lado deles, mesmo que estejam indo pra algum lugar. Se esse lugar existir, qualquer hora chegaremos lá. 

AS PESSOAS NĀO QUEREM O QUE ELAS PEDEM.

letra e música: Mari Blue

pra ouvir e ver o clipe da música: https://www.youtube.com/watch?v=tRU1Xhh4TGY

As pessoas não querem o que elas pedem
As pessoas não querem
As pessoas não querem o que elas pedem
Eles querem
As pessoas querem as
E consertar o caos
Querem a saúde na inércia
E tristeza fugaz
As pessoas querem as
Consertar o caos
Querem saúde na inércia
E tristeza fugaz
Independência pra não sofrer
E sofrência não trazer
Que ninguém seja refém
E que tudo fique bem
Que a verdade prevaleça
Que a idade simplesmente desapareça
Que a saudade não enlouqueça
E que a gratuidade mereça
As pessoas não querem o que elas pedem
As pessoas não querem
As pessoas não querem o que elas pedem
Elas querem
As pessoas não querem o que elas pedem
As pessoas não querem
As pessoas não querem o que elas pedem
Elas querem
As pessoas querem paz
E consertar o caos
Querem saúde na inércia
E tristeza fugaz
As pessoas querem paz
E consertar o caos
Querem saúde na inércia
E tristeza fugaz
Independência pra não sofrer
E sofrência no prazer
Que ninguém seja refém
E que tudo fique bem
Que a verdade prevaleça
Que a idade simplesmente desapareça
Que a saudade não enlouqueça
E que a gratuidade mereça
As pessoas não querem o que elas pedem
As pessoas não querem
As pessoas não querem o que elas pedem
Elas querem
As pessoas não querem o que elas pedem
As pessoas não querem
As pessoas não querem o que elas pedem
Elas querem

FORA DE SÉRIE

Deus!? Anda me testando
Que é pra ver se sou mesmo forte
Pra amar sem ter, não invejar sem poder
Viver sem contar com a sorte

Nem sempre a coisa é fácil
Mas pode um dia ser útil
Sentir a alma parar
E não deixar o corpo estático

Conseguir não ser narcótico
Manter pensamento lúcido
Poder se encantar com o lúdico
Sem perder o instinto prático

Deus!? Anda me testando
Que é pra ver se eu esqueço o norte
Pra andar sem ver
Aceitar o prazer
Poder também contar com a sorte

Me despeço e me desfaço
Me descaso com o fútil
E se a fumaça aumentar
Vou colocar no fogo fraco

Não preciso de um protótipo
Nem preciso ser inútil
Nem primeiro, nem o último
No rascunho me destaco

Isso não vai me converter
Seu tédio cava o que te fere
E o que o difere de você
Não tem valor
É sacrilégio

Mas eu tô fora de série
Fora do sério
Por recusar o remédio
Fora de série
Às vezes fora do sério
Por recusar o remédio

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