BANHEIRO DE EMPREGADA

  Há alguns anos eu venho carregando o desejo de escrever sobre um assunto que me causa remelexos intestinais: o “banheiro de empregada”, esse cômodo que esconde e revela uma aberração estrutural profunda do “meu” país, uma inscrição concreta nas plantas das moradias dos mais abastados e que não será destruída com uma simples demolição de suas louças baratas.

     Leio um artigo no qual uma arquiteta declara que há uma tendência de que o espaço (incluindo o “quarto de empregada”) desapareça das residências, já que vem sendo eliminado das plantas, e então ela justifica: “atualmente, é difícil arrumar um auxiliar de serviços que durma na casa do patrão”. Nos meus pensamentos agradeço a arquiteta pela sinceridade. Prosseguindo na leitura, constato que ela continua dando dicas para reformar os apartamentos que já possuem as “dependências de empregada”, alertando que é sempre bom preservar os banheiros nos projetos. Nas palavras dela, “um banheiro a mais, além de desafogar a demanda da casa, pode ser usado por uma pessoa que vai entregar, por exemplo, o gás, pois não há necessidade dela entrar no imóvel, e também pela auxiliar. Aconselho inclusive a colocar um chuveiro”. Percebo um esforço para trocar a palavra “empregada” por “auxiliar” em alguns momentos, mas prossigamos. Ela vai em frente afirmando que a “dependência de empregada” em um apartamento de classe A é “um bem a mais” que pode valorizar o imóvel. Já em apartamentos da classe C e D, pode atrapalhar, ou seja, poderia ser melhor utilizado. Abro um parêntesis pra lembrar que ela está falando sobre o “quartinho de empregada”, uma vez que já expressou que o “banheiro de empregada” deve permanecer em qualquer caso.

     Lembro de uma matéria recente que tratava das demandas da elite brasileira que está indo morar em Portugal, relatando que as empresas de construção e reforma portuguesas estão tendo que se adaptar aos “costumes” desses imigrantes de primeira classe. Em resumo: estamos exportando o  nosso conceito de “dependências de empregada” e anexado a ele o conceito de “banheiro de empregada”. Ops, banheiro de “auxiliar de serviços”, agora ficou melhor, muda-se o nome para não mudar nada, nesse caso. Em seguida, lembro também do filme “Histórias Cruzadas”, baseado no livro homônimo, que apesar de ter a clássica narrativa de exaltação do “branco salvador” (nesse contexto, a branca salvadora), é uma história que vale a pena ser conhecida em se falando da relação opressão X banheiros, duas coisas que parecem merecer um cuidado epistemológico especial.

      O fato é que no caso do Brasil não foi preciso criar uma lei para separar banheiros de negros e de brancos, como ocorreu nos Estados Unidos. A violência  aqui é aplicada por uma cultura carregada de leis subliminares ainda mais fortes, onde o “banheiro de empregada” é um significante. As empregadas racializadas sabem bem “o seu lugar” na visão da patroa (ou patrão), sabem o quanto dependem daquele emprego e o que significa “cruzar a fronteira”. Aliás, devo ressaltar que isso provavelmente não é uma especialidade brasileira, mas prefiro concentrar no nosso contexto de povo sorridente, que provavelmente carrega um sorriso de nervoso. Sobre esses assuntos de fronteira no território do trabalho dito “doméstico” recordo o filme coreano “O Parasita”, que dedica alguma atenção a esse ponto específico das relações e mostra que a ideia de uma classe que “cheira bem” não é exclusividade nossa, a merda mais cheirosa é encontrada no mundo todo.

             Já ouvi sujeitos que, querendo justificar a utilidade e benefício do “banheiro de empregada”, argumentam que estão promovendo um espaço de privacidade para aqueles que “prestam serviços” na casa, criando uma relação mais profissional com essas pessoas. Nesses momentos, aquele remelexo intestinal que citei inicialmente me toma de assalto perante tamanha capacidade de argumentação laxante, uma vez que profissionais ditos “classe A” como médicos e advogados  (que por ventura prestarão uma consultoria nesse domicílio), jamais serão direcionados a esses banheiros, por mais estranhas à família que essas pessoas sejam. Enquanto isso, pedreiros e diaristas serão muito bem vindos neles. Inclusive, funcionárias que são tidas como “praticamente da família” também são incluídas nessa relação super profissional, até porque esse “praticamente” denota mais uma relação de função prática e utilitária do que de membro da família.

        Volto na fala da arquiteta que citei no início e não me surpreendo que os “aposentos de empregada” não estejam saindo das plantas dos apartamentos por vergonha na cara, mas por falta de trabalhadoras que se sujeitem ao cargo, em seguida recordo a revolta da classe média frente a alguns dos mais recentes direitos trabalhistas destinados às “trabalhadoras domésticas*” contratadas. Patrões e patroas, apavorados com o risco de terem que lavar a sua própria privada ou lidar com sua sujeira, criticaram as medidas se apoiando no possível desemprego que esses direitos iriam promover. Sempre há quem defenda condições análogas à escravidão ou injustiças tremendas em prol de um desemprego menor, ou seja, uma desculpa conveniente, cruel e muitas vezes alienante.

          Há quem esteja, real ou aparentemente,  se envergonhando do próprio passado, nomeando apenas com a palavra “banheiro” o antigo “banheiro de empregada” e transformando o “quartinho de empregada” numa dispensa ou num escritório. Mas o esqueleto de concreto e a planta mapa de um assunto que estamos longe de superar ainda está lá, para alguns, existindo como um museu do ontem, para outros, que querem perpetuar esse sistema, um museu do amanhã.

* Uso “trabalhadoras domésticas” com aspas para explicitar o emprego corrente; e no feminino, pelo fato de que são mulheres, em sua grande maioria, que executam trabalhos de cuidado na esfera dos domicílios no Brasil e no mundo.

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