“Sonhos não envelhecem”, me deparo com esse trecho de uma das músicas que eu mais amo e em seguida me pergunto: será que não envelhecem mesmo?
Por ora, chego à conclusão de que apenas alguns, e estes não costumam nem ser evidenciados, por envolverem questões perigosas para os que querem permanecer no controle, por envolverem o que dificilmente envelhece: os produtos humanos mais sutis e revolucionários. São os sonhos coletivos. Aliás, arrisco pensar que é sobre esse tipo de sonho que Márcio Borges estava falando quando escreveu a letra da canção “Clube da Esquina número 2”.
Os sonhos são belas armas valiosas de fazer viver para, em função de, em direção a, por vezes, em um lugar bem longe daqui. Frequentemente se tornam românticas ferramentas para transformar sujeitos sensíveis em máquinas pouco criativas (ou até “muito criativas”) e, de bom grado, felizes (ou parecendo felizes), exaustos, ansiosos, depressivos e exaltados eles entram em caixas cada vez menores. Chega um momento em que estão tão automatizados e focados no propósito que nem se questionam se ainda importa. O orgulho de alcançar a meta anestesia qualquer movimento em outra direção, ou ao rompimento. O que importa é chegar lá, naquele lugar que foi definido um dia, quase como uma vingança contra “aqueles que não acreditaram no meu potencial”. Sonho, muitas vezes, é uma palavra bonita usada para esconder/promover as maiores obsessões narcísicas, e a vontade de poder.
A maioria dos sonhos tem sido muito parecida: sucesso, projeção, destaque e muito dinheiro. Clássicos sonhos burgueses vendidos para todo mundo. Vendidos? Sim. E custa caro, um preço inversamente proporcional aos recursos do sonhador. Às vezes alguns sonhos precisam poder envelhecer, e eles podem. As contingências mudam tanto os cenários no decorrer da vida que os sonhos podem se transformar, seja para a completa falta de sentido, seja para uma possível reinvenção, e isso não significa derrota, necessariamente, isso pode significar, por exemplo, liberdade, flexibilidade, autenticidade.
As famílias costumam amar ou odiar os sonhos dos “seus”, assim a criatura sonhante se torna ainda mais pressionada na prestação de contas. “Acredite em você!”, “Acredite nos seus sonhos!” , “Você merece!”. Adorável discurso motivacional, simples e sedutor. É claro que todos nós precisamos de autoestima (e de sonhar). Mas é preciso repetir bastante essas frases para o narciso sonhador aprender a reza e seguir aparentemente convicto, só que muitas vezes parecem mais ateus na missa se esforçando para acreditar.
“Chegou a destruidora de sonhos!”. Cheguei. Cheguei para destruir os sonhos inertes que insistem em frear a explosão. Que a palavra “sonho” se transforme! Que seja proferida no seu significado mais lúdico! Que os vendedores de sonhos percam seus empregos por venderem produtos tamanho único e sem diversidade. Ou que os sonhadores tenham mais consciência sobre o produto que estão comprando, que tenham direito de trocar ou simplesmente devolver. Que tenham direito de não comprar. Pode ser que a validade seja indefinida e pode ser que já venha vencido. O consumidor tem que ficar de olho! Pode ser que esteja na moda, normalmente a moda passa.
“A chama não tem pavio”. Pra começar, um sonho interessante pode ser: despertar.
